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O ESCÂNDALO DAS BALANÇAS

O Brasil tem cerca de 50 mil quilômetros de estradas federais e 1,2 milhão de caminhões, mas há apenas 15 balanças fixas em condições de uso nos postos de pesagem para fiscalizar o peso das cargas. Outras 39 balanças móveis são utilizadas em tempo limitado, operadas apenas no horário comercial. Faltam policiais rodoviários, operadores e funcionários do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (Dnit), do Ministério dos Transportes e da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) - em suma, a fiscalização é precaríssima.

Esta é mais uma das muitas deficiências da infra-estrutura de transportes que contribuem para reduzir o ritmo da atividade econômica e o fluxo normal de mercadorias, internamente e para o exterior.

O mau estado da maioria das estradas de rodagem brasileiras, em parte decorrência também do excesso
de peso das cargas que por elas transitam, onera o custo das mercadorias vendidas no mercado interno e externo, impedindo, em muitos casos, a exportação em bases competitivas. Além disso, acarreta desgaste precoce dos veículos, despesas substanciais de manutenção, atrasos na entrega das cargas e desgaste físico dos caminhoneiros. Mas os custos para a sociedade não são apenas de natureza econômica, pois há que computar os custos de perdas de vidas em desastres causados pelas péssimas condições de tráfego das estradas. Não fossem também insuficientes a malha ferroviária e as vias fluviais, estas duas modalidades de transporte poderiam compensar mais eficazmente o descalabro das estradas de rodagem.

O pequeno movimento de caminhões nas balanças é visível a olho nu pelos que transitam nas estradas brasileiras. Reportagem publicada no dia 1º de maio pelo Estado constatou que faltam balanças inclusive nas principais rodovias. Na Fernão Dias, que liga São Paulo a Minas Gerais, a balança instalada num posto próximo ao município de Pouso Alegre está desativada há anos, embora passem diariamente pelo local
2 mil caminhões.

A situação não é melhor em rodovias privatizadas, embora as concessionárias evitem arcar com maiores custos de manutenção devido à sobrecarga dos caminhões. Na Via Dutra, que liga São Paulo ao Rio e por onde passam 148 mil caminhões por dia, apenas 2 balanças funcionam durante as 24 horas do dia, mas raramente os infratores são punidos, pois as multas só podem ser lavradas na presença - improvável - de um funcionário da ANTT.

Aparentemente, transportadores se beneficiariam da má fiscalização, pois podem carregar maiores volumes do que os permitidos, faturando mais por viagem. Mas não é isso o que dizem os caminhoneiros. "O excesso de peso hoje não interessa a ninguém", disse ao Estado o presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam), José da Fonseca Lopes. A sobrecarga provoca achatamento dos fretes e diminui a vida útil dos veículos. A cada 5% de excesso de carga, a vida do veículo é encurtada em três anos. Dados do Dnit mostram que seis em cada dez caminhões envolvidos em acidentes trafegavam com excesso de carga. Ou seja, a falta de pesagem também responde pela destruição de vidas.

A responsabilidade do governo não pode ser omitida. Até os anos 70, o governo destinava 2% do Produto Interno Bruto (PIB) para a conservação ou construção de estradas, montante hoje reduzido a 0,2%, observa o diretor do Centro de Estudos em Logística do Instituto Coppead, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Fernando Fleury. A Associação Nacional dos Usuários de Transporte de Carga estima em R$ 10 bilhões a R$ 14 bilhões o custo da recuperação do sistema rodoviário, o que exige verbas e capacidade administrativa.

Desorganização do Ministério dos Transportes e o desinteresse do governo federal pelos usuários das estradas parecem ser as causas do problema. Ao mesmo tempo que transportadores irresponsáveis vandalizam rodovias, nas barbas do governo, este gasta dinheiro na "Operação Tapa Buraco", fazendo remendos eleitoreiros que possivelmente não resistirão até outubro.

Fonte: O Estado de S. Paulo

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